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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Amor Peculiar

 


Penso que sofro de amor por engano

Querem arrastar-me para o lado mundano

A minha sanidade está num, preocupante, limbo

Não me oiço suspirar sem causa aparente

Dizem que amar é um suspiro recorrente

Abomino ser catalogada com o mesmo carimbo

 

Querem que ame, louca e perdidamente

Fazem envergonhar-me de ser descrente

De um amor, supostamente, eterno

Vão tentar apanhar-me só e desprevenida

Sei que vou lutar, mas temo não ter saída

Finjo amar na primavera, mas fugirei no inverno

 

Sou imune à necessidade da adrenalina da paixão

A minha estrutura conserva-se sem grande emoção

O dito amor nunca me suscitou curiosidade

Posso viver com paixões simples e banais

Sem suspiros, palpitações e outros sinais

O amor com que vivo, sofre de peculiaridade



terça-feira, 8 de setembro de 2020

Leiga a Navegar

Fiz-me ao mar, no bote já envelhecido

Sou leiga a navegar, mas o foco não está comprometido

Os remos são pesados, as ondas dão-me luta

Os problemas já estão elaborados, é certa a disputa

 

O céu leva-me, sem questionar o trajecto

A coragem, aos poucos, aguça-me a destreza

Revejo os planos do ambicioso projecto

Sozinha em alto mar, junto-me com a correnteza

 

A brisa marinha, toca-me o rosto envergonhadamente

Nasce-me uma rainha, que morre prematuramente

Sou um navegador, em água bravia e salgada

Rasgo o mar com clamor, lavando a alma magoada

 

As velas obedientes, corajosas e altivas

São a companhia ideal nesta viagem

Remando, as minhas raízes estão mais vivas

Eu, o mar e o céu, chegam de bagagem

 



sábado, 5 de setembro de 2020

Abandono Cruel

 


As casas estão degradadas, já foram bonitas

Os anos não se compadeceram das suas fitas

O chão nunca conheceu o asfalto

O abandono causa algum sobressalto

Os habitantes são poucos e em idade sábia

A juventude abalou, inchada em lábia

O lugar que outrora foi muito apetecido

Está por sua conta, mas sente-se perdido

Dizem que quando a alegria se quiser reformar

É ali que vai ver uma casa para arrendar

Os políticos que tanto aclamaram nas eleições

Abandonaram-nos à sorte sem direcções

A aldeia ainda tem a sua beleza crua

Mas há quem não goste da verdade nua

Os senhores, ao domingo, jogam à malha

Juntam-se no largo da capela, ninguém falha

As senhoras reúnem-se na casa mais soalheira

Relembram a mocidade, tão bonita companheira


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