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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Palavras em excesso


Sofro de excesso de palavras acumuladas

Fogem-me da alma e deitam-se alinhadas

Insistem em se manter em rima constante

Reclamam que de outra maneira seria ultrajante

Pedem-me que siga, sempre, poetizando

Que as escreva tão bem como Fernando

Tenho receio da enorme, e medonha, responsabilidade

Viver a poesia é carregar, por vezes, a soturnidade

Tem dias que me fazem girar como um carrossel

Tamanha é a pressa de se verem escritas no papel

Os poemas nascem de um clique emocional

Impossíveis de travar e de imperceptível sinal

Ainda não sou poeta, nem a meio caminho vou

Os versos são um néctar que em mim se enraizou

 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Leiga a Navegar

Fiz-me ao mar, no bote já envelhecido

Sou leiga a navegar, mas o foco não está comprometido

Os remos são pesados, as ondas dão-me luta

Os problemas já estão elaborados, é certa a disputa

 

O céu leva-me, sem questionar o trajecto

A coragem, aos poucos, aguça-me a destreza

Revejo os planos do ambicioso projecto

Sozinha em alto mar, junto-me com a correnteza

 

A brisa marinha, toca-me o rosto envergonhadamente

Nasce-me uma rainha, que morre prematuramente

Sou um navegador, em água bravia e salgada

Rasgo o mar com clamor, lavando a alma magoada

 

As velas obedientes, corajosas e altivas

São a companhia ideal nesta viagem

Remando, as minhas raízes estão mais vivas

Eu, o mar e o céu, chegam de bagagem

 



sábado, 5 de setembro de 2020

Abandono Cruel

 


As casas estão degradadas, já foram bonitas

Os anos não se compadeceram das suas fitas

O chão nunca conheceu o asfalto

O abandono causa algum sobressalto

Os habitantes são poucos e em idade sábia

A juventude abalou, inchada em lábia

O lugar que outrora foi muito apetecido

Está por sua conta, mas sente-se perdido

Dizem que quando a alegria se quiser reformar

É ali que vai ver uma casa para arrendar

Os políticos que tanto aclamaram nas eleições

Abandonaram-nos à sorte sem direcções

A aldeia ainda tem a sua beleza crua

Mas há quem não goste da verdade nua

Os senhores, ao domingo, jogam à malha

Juntam-se no largo da capela, ninguém falha

As senhoras reúnem-se na casa mais soalheira

Relembram a mocidade, tão bonita companheira


domingo, 30 de agosto de 2020

Telefone a tocar


O telefone tocou, até ficar mudo

Deste lado não se falou, mas percebeu-se tudo

É sempre ao entardecer, que o telefone canta

Ninguém chega a atender, o barulho já não espanta

Quem vive na habitação, é pacato e silencioso

Passa bem sem comunicação, o seu tempo é precioso

 

Quem telefona diariamente, é persistente e audaz

Nunca ouve voz de gente, mas acredita ser capaz

O telefone vai-se ouvindo, um toque constrangedor

O vizinho vai-se rindo, habituou-se ao som do motor

Em cima da escrivaninha, com o sol a bater

De cor amarelinha, está o telefone sem nada perceber


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Sagrada Família

Bem-vinda sejas Família sagrada

A esta humilde e devota morada

Ensina-nos a saber amar sem contrapartida

Livra o nosso lar da inveja desmedida

Sagrada Família aceita a nossa oração

É de sincero arrependimento e de pura devoção

Protege esta casa de qualquer tempestade

Livra-nos da mentira, mostra-nos a verdade

Quando cá pernoitas, a paz vem contigo

Somos teus servos neste, agora teu, abrigo

Graças te damos Sagrada Família

Aceita com carinho esta sentida vigília


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Livra-me do Invejoso


Pela estrada que tenho de seguir

Peço-Te, protege-me de cair

Que os olhos do invejoso

E o seu olhar pegajoso

Não me conheçam o andar

Nem me oiçam a falar

Deus Pai, guia-me no caminho

Que eu nunca me sinta sozinho

Se o invejoso viver a meu lado

Leva o seu mal e que fique enterrado

Livra-me Pai, da cobiça atroz

Sou Teu servo, é tua a minha voz

Que as pragas e o maldizer

Do invejoso que só faz sofrer

Sejam gotas no oceano

Que não causem nenhum dano

Senhor, rei de todas as nações

Livra-me da inveja, mascarada de boas acções


sábado, 6 de julho de 2019

O Amor nada esquece


A essência que contempla o amor
Devia seguir sempre a rigor
E actualizar-se constantemente
Os efeitos chamados colaterais
Com causas nem sempre naturais
Incomodam e cansam a gente

O amor percorre de forma incansável
Um ideal por vezes irrealizável
Mas não desiste sem dar luta
O caminho feito lado a lado
Transmite um dever realizado
E um esforço de maioria absoluta

Um cuidado extra, acrescido de cautela
Com carinho dengoso de novela
É o tratamento que o meu amor merece
Se na estrada terminar o alcatrão
E a poeira me toldar a visão
Seguirei às cegas, o amor nada esquece


quarta-feira, 29 de maio de 2019

Não caíste de um pedestal

Não foi de um pedestal
De onde clamas que caíste
Não percebeste o sinal
Nem porque te distraíste

Não foi nenhum trono
Que deixaste para trás
Sofreste de abandono
E ainda não encontraste paz

Não será com arrogância
Que seguirás um bom caminho
A tua história tem discrepância
Não te entendes sozinho

Não será com falso moralismo
Que retomarás a tua missão
Estás tão perto do abismo
E nem assim aprendes a lição

terça-feira, 21 de maio de 2019

Sairei em Cortejo


Serei condecorada
De faixa encarnada
Com pompa e circunstância
Serei aplaudida
Sem emoção contida
Até à última instância

Sairei em cortejo
Por todo o vilarejo
Estarei no auge da popularidade
Serei seguida por centenas
Ecoar-se-ão cantilenas
Esquecerei a todo o custo a realidade
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