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domingo, 21 de março de 2021

Tropeções no caminho

 


Nos tropeções com que a vida nos surpreende

O chão recebe-nos, mas não nos prende

Importa saber levantar de cabeça erguida

Sacudir a poeira e retomar as rédeas da vida

Tropeçar, pode acontecer a qualquer um

Cair não é vergonha, nem tira pedaço algum

Quem não caminha com humildade na algibeira

Mais tropeça e mais se suja de poeira

O caminho pode ser áspero e ventoso

É essencial conseguir evitar o invejoso

Se a chuva começar a cair sem pedir licença

Sorria e feche os olhos, agradecer faz diferença

Nas encruzilhadas de escolha difícil e duvidosa

Aliar a cabeça ao coração é uma arma poderosa

O fruto que será colhido, na meta tão desejada

Terá melhor sabor se tivermos aprendido com a estrada


terça-feira, 16 de março de 2021

Será que sou Poeta

 


Será que sou poeta de alma doente

Instalado num cativeiro de palavras indecisas

Será que ser poeta é escrever o que se sente

Proclamar a céu aberto quando se mente

Deixando a bola entrar em todas as balizas

 

Será que sou poeta por escrever alinhado

Despejo os pensamentos em catapulta

A caneta fez-se o meu melhor aliado

As folhas deixam-se encher do meu palavreado

No fim o poema até parece que resulta

 

Será que sou poeta apenas por saber rimar

Porque iludo o mundo sobre a minha essência

Digo que sofro sem nem sequer clamar

Enxugo as lágrimas que nem vi derramar

Será que ser poeta é ser vizinho da demência

 

Será que sou poeta de versos sem noção

Ou nem perto caminho de ser poeta algum

A mente inquieta comanda a minha mão

Fora da minha janela tudo é inspiração

Poeta é ter os sentimentos e não querer nenhum


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Expurgar o mal a escrever

 


De lapiseira na mão, com a alma triste e despedaçada

Escrevo o que me atormenta o coração, a angústia tornou-se pesada

As mãos querem tremer, mas não as deixo serem cobardes

Vou expurgar o mal a escrever, nem que esgote todas as tardes

Escrita apressada como eu, indicar o culpado é o objectivo

Na verdade, foi ele quem perdeu, nunca foi tenaz nem afectivo

 

As linhas enchem-se de frases, duras, verdadeiras e doridas

Não descendeste dos audazes, só aprendeste a criar as feridas

São páginas de desabafo que, estranhamente, me reedificam

O dia ainda não está safo, porque as entranhas ainda me picam

Irei escrever noite dentro, as folhas irão transbordar de caligrafia

Amanhã noticiarão o epicentro e divulgarão a bibliografia



quinta-feira, 5 de março de 2020

Visita da casa


Se vens à minha humilde habitação
Seja por visita, ajuda ou favor
Sê delicado e usa a educação
Porque quem age com má intenção
Habilita-se a ser recebido com dissabor

Se passas da minha porta p’ra dentro
Não desdenhes da hospitalidade
Um dia estamos no centro
No outro dispensamos o coentro
Porque há temperos com mais humildade

Se te ceder um lugar à mesa
E do pouco banquete te der a provar
Podes ter a mais pura certeza
Que te considerei da realeza
E da família te podes considerar

domingo, 19 de janeiro de 2020

A música do Piano


Ouvi o som de um piano, vindo da casa sem iluminação
E com a liberdade de um cigano, dirigi-me na sua direcção
A melodia era apaziguante, de uma beleza incomum
Ao ver a porta fiquei hesitante, ali parada sem jeito nenhum

Mal toquei na porta, ela abriu sem reclamar
A maçaneta estava torta, com medo decidi entrar
Não havia divisões, apenas um espaço aberto
Para a música não havia razões, nenhum piano por perto

A melodia continuava, ouvia-se em todo o lado
Mas quem será que tocava, sem ser enxergado
Fiquei com receio, e abandonei a habitação
O caminho não ia a meio, quando deixei de ouvir a canção

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O carteiro não trouxe a carta

O carteiro não deu com a minha morada
Continuo na mesma casinha à beira da estrada
Mas agora sem correspondência exterior
Já questionei a, pouca, vizinhança
Poderiam ter o meu correio, com alguma esperança
Afinal não havia carta do meu amor

Eu que tanto esperei pela tua carta
Já sentia a alma farta
Na ânsia de a receber
Será conspiração do universo
Que agora ande por aí disperso
O meu correio com um estranho a ler?

Vou fazer uma espera no início da rua
O carteiro tem que trazer uma carta tua
E nem julgue que se volta a enganar
Logo, sei que vou adormecer a sorrir
Terei o melhor remédio para dormir
Infeliz daquele que não sabe amar

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Livro de Receitas


O meu pequeno livro de receitas
É uma peça essencial no meu quotidiano
Tem de tudo, até frases feitas
E ingredientes que põem a canto o mediano

É um livro em constante construção
Com receitas do mais variado contexto
Nunca me falha, está sempre à mão
Mesmo que seja ano bissexto

A receita que uso em demasia
E que quase já se tornou um clássico
É a de como lidar com a hipocrisia
Sem nos juntarmos a esse grupo básico

Tenho também para outras maleitas
Desde a inveja às maldades gratuitas
São-me essenciais estas minhas receitas
Para tomar cuidado com causas fortuitas

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Estou Agradecida


Foi mais um dia abençoado
Que por Ti me foi dado
Espero ter sido merecedora
Foi mais uma graça concedida
Mais um motivo porque estou agradecida
Sem Ti nunca seria uma lutadora

No caminho, nas pedras já não tropeço
Eu sei que quando Te peço
Tu ouves a minha oração
Em cada regresso ao meu lar
Sinto que comigo vieste a caminhar
Recebe com carinho a minha gratidão

sábado, 14 de dezembro de 2019

Engolir Sapos


Respirar bem fundo
Contar pr’a lá de cem
Cada maluco com seu mundo
Só não percebe quem não tem

Engolir alguns sapos
Não é tarefa saudável
Saber separar os trapos
Muitas vezes torna-se rentável

Ter a destreza e a habilidade
De não responder a uma ofensa
Revela uma enorme maturidade
E o agressor nem sabe o que pensa

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Torneira a pingar

A torneira do lavatório
Do, já lotado, sanatório
Não pára de pingar
Já chamaram o canalizador
Que não soube qual a dor
Nem qual o mal a tratar

Os pacientes já se habituaram
Nem sequer reclamaram
O pingo não faz muito alarido
O pior, diz a direcção
São os custos de manutenção
Deixa qualquer um espavorido

Arranjaram um chico esperto
Que ao olhar bem de perto
Soube como lhe dar sumiço
Tapa-se a boca da torneira
Com fita-cola ou de outra maneira
E informa-se que está fora de serviço

sábado, 30 de novembro de 2019

A casa que foi nossa


Nos mosaicos da casa que foi nossa
Alguém pintou um coração partido
Não é que me afecte, mas faz mossa
Estou a tentar ultrapassar, sem alarido

O telhado da casa que nos pertenceu
Começou a ceder ao abandono
Desistiu de encobrir o mal que aconteceu
Já não vai resistir a este outono

As janelas da nossa casa encantada
Estão estilhaçadas e desprovidas
A vida que prometeste requintada
Nunca conheceu senão as feridas

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Anos Oitenta


Há demasiadas vaidades
Consumidas por futilidades
Padrões de vida vergonhosos
Voltámos aos anos oitenta
Nas roupas, não na sebenta
Mas não regressaram os bons modos

Usa-se e abusa-se da roupa larga
Porque um tolo burro de carga
Decidiu que, por agora, é tendência
Pena que a educação e a humildade,
O amor ao próximo e a fraternidade
Não voltaram a ser regra de excelência

Vive-se sem pensar demasiado
Que horror ser bem comportado
O passado voltou, mas só na imagem
Pobres os que seguem modas alheias
Seres vazios de almas feias
Perderam o melhor na viagem

Se decidiram voltar ao passado
E lançar a moda do desajeitado
Que o fizessem com fiel reprodução
Os “manequins” dos oitenta eram mais pacientes
Sabiam ouvir e estar presentes
Usavam a largueza também no coração

domingo, 24 de novembro de 2019

O teu nome no muro

Pintei num muro de uma rua vazia
O teu nome em tinta colorida
Não percebi porque o fazia
Mas na altura soube-me pela vida

Duvido que alguém o vá ler
A rua é mais deserta que o teu coração
Na altura pareceu-me certo escrever
E o teu nome foi a mais rápida opção

Se algum dia passares por cá
Demora-te junto ao muro riscado
O meu amor parece que ficou por lá
Junto ao nome que o deixou abandonado

A letra foi a melhor que consegui
Também não merecias muito melhor
Depois de tudo o que por ti sofri
Tiveste sorte em não ter feito pior

Até que as intempéries tudo apaguem
O teu nome estará sempre visível
As pedras do muro, agora sabem
Que, infelizmente, és substituível

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Combater a maleita


Não entro sem pedir licença
Mas há muita gente que pensa
Que pode, manda e quer
Não me faço de convidada
Aprendi a ser educada
E a não meter a colher

Não concordo se me deitam abaixo
Tenho sempre aceso o facho
E sigo iluminando o meu sonho
Sei de que estopa sou feita
Aprendi a combater a maleita
O meu dia nunca é enfadonho

Não gosto de ostentação
Causa-me alguma aversão
Lindo é o que somos por dentro
Não sou de julgar um louco
Porque de normal tenho pouco
E muitas vezes me desconcentro

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O amor de um Cão

o meu Nico ♥


De focinho sempre alerta
Com astúcia e alma esperta
A cauda não pára de abanar
É a alegria ao ver o dono chegar

Com lealdade acima da média
E inteligência de enciclopédia
Ter um cão é ser rico de amor
E da humanidade ser conhecedor

Existem anjos sem asas que não voam
Existem seres que, sem julgar, nos perdoam
O melhor remédio para um triste coração
É o carinho e o altruísmo de um cão

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Quem diz amar sem amor


Quem segue o amor sem amar
Fingindo que ama e quer ficar
Nunca o amor conheceu
Quem diz amar perdidamente
E finge que ama loucamente
Nunca a arte de amar aprendeu

Quem muitas vezes diz amar
E que o amor é fácil de explicar
Nunca na vida amou ninguém
Quem escreve amor com banalidade
E diz que vai amar para a eternidade
Não sabe o sabor que o amor tem

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Lembro-me (A Escola)


Lembro-me do primeiro dia de escola
Do medo da emancipação
Lembro-me da cor da minha sacola,
Do lápis, da borracha, do bater do coração

Lembro-me de me sentir grande
Naquele tão pequeno começo de vida
Lembro-me de achar tão longo o caminho
Mas de o fazer altiva, decidida

Lembro-me do cheiro da minha carteira,
do barulho do choro de outra criança
Lembro-me da cor da lapiseira
Com que comecei a escrever a esperança

Lembro-me da campainha que tocava,
pela emoção ao acabar mais um dia
Lembro-me de como depressa passava
O recreio onde brincava e tudo podia

Lembro-me de me lembrar como seria
Lembrar-me daquele passado tão inocente
Lembro-me de pensar se estaria
Triste, com saudades ou diferente

Lembro-me do último dia de escola
Das saudades que ainda não tinham chegado
Lembro-me do cheiro da minha sacola
Ao deixar para trás um pouco do meu passado


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A Sara e a gata Lena (Poesia Infantil)

Autoria da boneca: https://pixabay.com/illustrations/girl-cute-girl-cat-little-girl-3508781/

A Sara mora numa vila pequena
Gosta de animais e de brincar na rua
Tem uma gata branca chamada Lena
Diz que não há mais linda que a sua

A Sara e a Lena passam a tarde a brincar
Brincadeiras muito divertidas
A gatinha gosta muito de saltar
E finge que joga às escondidas

A Sara trata muito bem da amiga
Dá-lhe comida, amor e dedicação
A gatinha gosta de festas na barriga
São amigas de alma e coração

A gatinha Lena ronrona no colo da Sara
Parece um pequeno aprendiz
Às vezes também lhe lambe a cara
Ter um gato é ser mais feliz

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Panfleto Colorido


Ao passar numa rua da minha cidade
Encontrei colado num poste de electricidade
Um panfleto repleto de letras coloridas
Lá dizia que buscavam urgentemente
Pessoas que tratam os outros como gente
E saibam como cuidar de almas feridas

Não tinha qualquer limite de idade
Nem pedia grau de escolaridade
Bastava querer e saber ouvir os outros
Diziam que estava em vias de extinção
A bondade gratuita vinda do coração
E que os membros ainda eram poucos

Para contactarmos o anunciante
Ter atenção ao compromisso importante
Estão em causa sentimentos alheios
Era facultado um número de telefone
Para que o candidato impressione
E esclareça todos os seus receios

Fui a única que parei a ler o panfleto
Os que passavam nem viraram o esqueleto
As letras coloridas não foram o suficiente
Anotei o contacto no meu caderno
Desejo que possa vir a ser eterno
O amor despretensioso e transigente

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