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terça-feira, 16 de março de 2021

Será que sou Poeta

 


Será que sou poeta de alma doente

Instalado num cativeiro de palavras indecisas

Será que ser poeta é escrever o que se sente

Proclamar a céu aberto quando se mente

Deixando a bola entrar em todas as balizas

 

Será que sou poeta por escrever alinhado

Despejo os pensamentos em catapulta

A caneta fez-se o meu melhor aliado

As folhas deixam-se encher do meu palavreado

No fim o poema até parece que resulta

 

Será que sou poeta apenas por saber rimar

Porque iludo o mundo sobre a minha essência

Digo que sofro sem nem sequer clamar

Enxugo as lágrimas que nem vi derramar

Será que ser poeta é ser vizinho da demência

 

Será que sou poeta de versos sem noção

Ou nem perto caminho de ser poeta algum

A mente inquieta comanda a minha mão

Fora da minha janela tudo é inspiração

Poeta é ter os sentimentos e não querer nenhum


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Palavras em excesso


Sofro de excesso de palavras acumuladas

Fogem-me da alma e deitam-se alinhadas

Insistem em se manter em rima constante

Reclamam que de outra maneira seria ultrajante

Pedem-me que siga, sempre, poetizando

Que as escreva tão bem como Fernando

Tenho receio da enorme, e medonha, responsabilidade

Viver a poesia é carregar, por vezes, a soturnidade

Tem dias que me fazem girar como um carrossel

Tamanha é a pressa de se verem escritas no papel

Os poemas nascem de um clique emocional

Impossíveis de travar e de imperceptível sinal

Ainda não sou poeta, nem a meio caminho vou

Os versos são um néctar que em mim se enraizou

 

terça-feira, 14 de abril de 2020

Escrever é Lutar


À luz de um candeeiro antigo
Escrevo no papel o que me tira a paz
Podem achar que dava um bom artigo
Mas não partilho aquilo que mal me faz

A página já vai p'ra lá de meia
As palavras saem como cascatas
Por este andar à hora da ceia
Ainda estou a escrever filosofias baratas

Noite dentro continuei a labuta
A minha alma necessita de se expurgar
Cada frase é uma sentida luta
Até ao ponto final não me vou acobardar

A madrugada espreitou-me pela janela
Diz que teve pena de me ver assim
Antes que o sol tomasse o lugar dela
Pousei a caneta e fui cuidar de mim

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A vida, o Mundo e Eu


Uma simples folha caída no chão
A sua vida, por agora, terminou
Presume-se que a sua tarefa acabou
Para dar lugar a um outro embrião

Um fruto que cai de maduro
Nem sempre é bem aproveitado
A fartura criou o malcriado
E não ensinou a pensar no futuro

Diz que nada se perde no mundo
Que tudo se transforma, indubitavelmente
Caminho para a certeza que alguém mente
Em algures se esconde um segredo profundo

Levo os dias ao sabor do meu vento
Não preciso de copiar aragens alheias
Evito pisar o chão sem as minhas meias
Nem me sento depressa noutro assento

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Autor de Estante


Como um fósforo que arde depressa
Assim se resume o meu dia
Por muito que esteja cheia a travessa
A minha alma continua sempre vazia

A tinta da caneta está a chegar ao fim
E ainda não escrevi tudo sobre mim
As folhas do caderno parecem intermináveis
E as ideias decidiram tornar-se dispensáveis

A música que está a tocar na rádio
Lembra-me palavras de um sábio
Deixo a melodia ganhar terreno
E o meu cubículo tornou-se mais sereno

A lua está de quarto minguante
Parece que de tudo me afasto
Um dia chegarei a autor de estante
E o meu livro, de tanto ser lido, ficará gasto

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Livro de Receitas


O meu pequeno livro de receitas
É uma peça essencial no meu quotidiano
Tem de tudo, até frases feitas
E ingredientes que põem a canto o mediano

É um livro em constante construção
Com receitas do mais variado contexto
Nunca me falha, está sempre à mão
Mesmo que seja ano bissexto

A receita que uso em demasia
E que quase já se tornou um clássico
É a de como lidar com a hipocrisia
Sem nos juntarmos a esse grupo básico

Tenho também para outras maleitas
Desde a inveja às maldades gratuitas
São-me essenciais estas minhas receitas
Para tomar cuidado com causas fortuitas

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Não se comparam a ti

A doçura num rebuçado de mentol
E o calor que a minha pele recebe do sol
Não se comparam à tua companhia
A frescura da sombra de um castanheiro
E o perfume das rosas num canteiro
Não se comparam à tua simpatia

A suavidade de um cobertor de algodão
O conforto de um dia de verão
Não se comparam ao amor que me dás
A calma de um chá de camomila
O aconchego de uma pequena vila
Não se comparam ao tamanho da tua paz

terça-feira, 17 de setembro de 2019

A Janela das traseiras


Pedaços de vidro estilhaçado
Inundam os degraus da escada das traseiras
Interrogo-me quem será o desgraçado
Que me quer ver perder as estribeiras

Era ainda manhã cedo e caía chuva miudinha
Vim ao quintal apanhar erva cidreira
Reparei que tinha tido uma visitinha
Que fez questão de me partir a floreira

Reparei nos vidros a servir de tapete
E a janela partida, bailava ao vento
Maldito ser com alma de diabrete
Que me quer causar tanto tormento

A manhã já ia alta, deixou de chover
Já não havia sinal de maldade gratuita
A janela tratada, deixou de bater
A escada voltou a ficar bonita

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Panfleto Colorido


Ao passar numa rua da minha cidade
Encontrei colado num poste de electricidade
Um panfleto repleto de letras coloridas
Lá dizia que buscavam urgentemente
Pessoas que tratam os outros como gente
E saibam como cuidar de almas feridas

Não tinha qualquer limite de idade
Nem pedia grau de escolaridade
Bastava querer e saber ouvir os outros
Diziam que estava em vias de extinção
A bondade gratuita vinda do coração
E que os membros ainda eram poucos

Para contactarmos o anunciante
Ter atenção ao compromisso importante
Estão em causa sentimentos alheios
Era facultado um número de telefone
Para que o candidato impressione
E esclareça todos os seus receios

Fui a única que parei a ler o panfleto
Os que passavam nem viraram o esqueleto
As letras coloridas não foram o suficiente
Anotei o contacto no meu caderno
Desejo que possa vir a ser eterno
O amor despretensioso e transigente

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A Paciência


Numa tarde de calmaria
Com uma brisa aconchegante
Encontrei a paciência junto à ria
Pensativa sem nenhum acompanhante

Cheguei-me à sua beira
E cumprimentei-a com educação
Queria encontrar maneira
De perguntar se conhece a solidão

Meio encabulada, lá consegui perguntar
E ela sorridente me respondeu
A solidão é o único lugar
Onde se encontra o que se perdeu

Gabei-lhe a sensatez e a maturidade
Ter paciência não é para qualquer um
Disse-me que muitas vezes a felicidade
Nasce de quando se evita o zunzum

Despedi-me e agradeci a sabedoria
Espero encontra-la regularmente
A paciência sabe que a alegria
Não é um dom para toda a gente

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Desmoronar


Deixaste no ar o teu perfume
Mas não levaste o ciúme
Que fez desmoronar esta habitação
As paredes ainda permanecem de pé
Eu acredito e não perco a fé
De conseguir uma reconstrução

Os vidros das janelas
Repletos de mazelas
Não deixam ver o exterior
A claridade não se sente convidada
A tua destruição aclamada
Repele qualquer brisa ou calor

As portas já não servem de escudo
O próprio som ficou mudo
Esmagaste a tua pouca dignidade
Que a estrada por onde vais
Não aconchegue teus ais
Nunca vais sair da mediocridade

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Dissabor


Vi-te sair de tua casa
E como um ferro em brasa
Senti queimar meu coração

Ias montado a cavalo
Eu quase que te falo
Tive que conter a emoção

Fui-te perdendo de vista
E como um chantagista
Segui-te uns passos atrás

Quando desceste do cavalo
Veio um moço, talvez vassalo
Segurou o animal como um capataz

Entraste na casa dela
Que nada tem de donzela
E espezinhaste o meu amor

Já não fiquei à tua espera
Destruíste a minha quimera
Desejo-te o mesmo dissabor

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Vontade de ter Coragem


Perdi a postura, mas foi sem intenção
Busco agora a cura para esta indiscrição
Tenho o maior cuidado com palavras insanas
Oiço ao longe o pecado a uivar entre as canas

Rasguei a carta que escrevi porque não fazia sentido
Se a tivesse entregue a ti não verias meu coração partido
Vou organizar o pensamento e escrever com precaução
Apesar deste mau momento sempre me dirigi com educação

A minha simples vontade de compreender a coragem
Faz-me não deixar pela metade nenhum plano de viagem
Chegando ao meu destino, cansada, mas feliz
O meu ego ainda que pequenino foi o melhor aprendiz

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Soltar um Sorriso

Se eu largar um sorriso
E ele decidir voar
Será de quem for preciso
E de quem o conseguir agarrar

Se estiver a chover
O sorriso vai poisar em terra
Quem o quiser recolher
Terá ganha a sua guerra

Se vier de volta
Outro sorriso qualquer
É porque quem um sorriso solta
Recebe na mesma colher

terça-feira, 23 de abril de 2019

Peço Socorro



A maldade está entranhada
Não enxergo mais nada
Perdi-me no nevoeiro
Peço por socorro
Aos poucos acho que morro
Já não sinto o corpo inteiro

As lágrimas sabem a fel
O meu coração foi-me infiel
Vou perder por opção
Os pés desconhecem o trajecto
Encolhem-se como um feto
Nem adeus digo com a mão.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Melhor Profecia


Pudera eu voar alto
Longe do asfalto
Seria mais que sublime
Pudera eu saber de cor
O que o amor tem de maior
Seria perfeito o crime

Soubesse eu priorizar
Deixar-me de relativizar
Minha alma agradecia
Soubesse eu gerir
Ninguém me veria falir
Seria a melhor profecia.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Cada um por si



Salta, salta, pula, pula
O mundo não espera por ti
Tem tento nessa gula
Porque é cada um por si

Nem que vás aos tropeções
Caminha sempre em frente
Quem usa muito os travões
Nem sabe que o carro é potente

Quem espera desespera
Mas não te queiras adiantar
Quem já viu os olhos da fera
Prefere algumas vezes se atrasar.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Sou diferente



Nunca fui normal
Aceito que sou diferente
No início e no final
Há sempre quem duvide da gente

Levar a vida sozinho
Nem sempre é mau presságio
Não vou seguir outro caminho
Para ser acusado de plágio.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Cadelinha Avelã


A cadelinha de nome Avelã
É radiante como o sol da manhã
A brincadeira é o seu ofício
E o seu melhor exercício

Orelhas sempre em alerta
Tudo é uma descoberta
A sua alegria é contagiante
A sua ternura viciante

De cor preta reluzente
Esbelta e um pouco carente
Adora saltar sem limite
É pura alegria o que transmite

Amor canino parece exagerado
Ama sem precisar ser amado
O canídeo é família de verdade
Porque nos ensina a humildade.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A minha Morte

Fonte: Google Images

Sonhei com a minha morte
Com o meu triste funeral
Qual terá sido a minha sorte
Terei sofrido no final?

A comitiva era diminuta
Não conheci ninguém
Que procissão mais devoluta
A despedida ficou muito aquém

Ao passar os grandes portões
O silêncio tomou lugar
Aqui acabam-se as questões
Nada mais há a perguntar.
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