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segunda-feira, 24 de julho de 2023

Oca paisagem

 


As paredes estão a cair aos pedaços

Mas os destroços não causam embaraços

Só irão ficar ruínas numa oca paisagem

As ervas daninhas já devoram o resto

Aos poucos introduzem um elemento funesto

Rapidamente assumirá o estatuto de miragem

 

A chuva torrencial alaga o caminho lamacento

Arrasta consigo qualquer tipo de lamento

Escurece a pouca luz que ainda ilumina a esperança

A humidade entranha-se na densa escuridão

O caminho faz-se com frio e cheiro a podridão

O fundo do túnel parece não oferecer segurança

 

A velha ponte de pedra desabou com a agonia

Quem não sabe nadar fica em terra fria

Vendo fugir-lhe um recomeço de serenidade

Ninguém volta para buscar os estranhos

Resta-nos calcular os gastos e os ganhos

E reconstruir com perseverança uma nova cidade


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Primeiro Andar


Abri a janela do esconderijo onde vivo

Necessito enxergar o que me aprisiona

Sei que apenas de tristeza sobrevivo

Faço um enorme esforço para me manter à tona

 

Vejo passar os sorrisos que me abandonaram

Dizem que me tornei vítima da minha agonia

Juro que lutei contra o que me armaram

Mas a escuridão apoderou-se de toda a alegria

 

Neste primeiro andar de ecos ensurdecedores

A solidão ocupou toda a velha, e pouca, mobília

Os meus pés arrastam-se como perdedores

Passo as noites em constante e assustadora vigília

 

Oiço a passar na rua a resiliência que, tristemente, perdi

Voltam as saudades dos sonhos livres e ambiciosos

Sou um monte de inutilidade que se vai deixar morrer aqui

Com medo de voltar a entrar no jogo dos corajosos

 

Já ninguém bate à porta ou pede para entrar

Acredito que o vazio da alma se propagou na comunidade

Anseio pela libertação do que me faz assim definhar

Espero passar algum dia pela rua da felicidade


 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Lugar do silêncio

 



A estrada ainda é de terra batida

Rodeada de eucaliptos e carqueja

A gente passa por lá despercebida

A calma continua a ser a preferida

É um sossego que nem todo o mundo deseja

 

As casas, escassas e desabitadas

Complementam o silêncio do lugar

As pessoas ali nascidas e criadas

Desertaram para as modernices desejadas

Abandonando o que tinha mesmo de ficar

 

Nos dias de calor, o pó percorre a estrada

Na chuva, a lama toma conta do sucedido

Podia ser chamado de terra encantada

Mas a vida armou-lhe uma cilada

O povo escolheu a cidade, iludido


sábado, 5 de setembro de 2020

Abandono Cruel

 


As casas estão degradadas, já foram bonitas

Os anos não se compadeceram das suas fitas

O chão nunca conheceu o asfalto

O abandono causa algum sobressalto

Os habitantes são poucos e em idade sábia

A juventude abalou, inchada em lábia

O lugar que outrora foi muito apetecido

Está por sua conta, mas sente-se perdido

Dizem que quando a alegria se quiser reformar

É ali que vai ver uma casa para arrendar

Os políticos que tanto aclamaram nas eleições

Abandonaram-nos à sorte sem direcções

A aldeia ainda tem a sua beleza crua

Mas há quem não goste da verdade nua

Os senhores, ao domingo, jogam à malha

Juntam-se no largo da capela, ninguém falha

As senhoras reúnem-se na casa mais soalheira

Relembram a mocidade, tão bonita companheira


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Casa vazia

Fonte: Google Images

Deixaste-me o silêncio
Numa casa vazia
Provaste ser um jumêncio
Com demasiada primazia

Nem o sol quer entrar
Nas poucas janelas da casa
Sozinha não consigo iluminar
E a escuridão só me desfasa

Vou fazer uma remodelação
Este lar precisa de um futuro
Sem ti aprendi uma lição
Sem carga salta-se melhor o muro.
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