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segunda-feira, 24 de julho de 2023

Oca paisagem

 


As paredes estão a cair aos pedaços

Mas os destroços não causam embaraços

Só irão ficar ruínas numa oca paisagem

As ervas daninhas já devoram o resto

Aos poucos introduzem um elemento funesto

Rapidamente assumirá o estatuto de miragem

 

A chuva torrencial alaga o caminho lamacento

Arrasta consigo qualquer tipo de lamento

Escurece a pouca luz que ainda ilumina a esperança

A humidade entranha-se na densa escuridão

O caminho faz-se com frio e cheiro a podridão

O fundo do túnel parece não oferecer segurança

 

A velha ponte de pedra desabou com a agonia

Quem não sabe nadar fica em terra fria

Vendo fugir-lhe um recomeço de serenidade

Ninguém volta para buscar os estranhos

Resta-nos calcular os gastos e os ganhos

E reconstruir com perseverança uma nova cidade


sexta-feira, 18 de março de 2022

Como um dia de julho

 


Amor de copo cheio

Saímos de tarde num passeio

És a luz do meu entardecer

O meu coração só por ti sabe bater

Amor de partilha e aconchego

Beleza rara de um deus grego

De mãos dadas causamos inquietação

Se nos beijamos incendiamos a multidão

Amor de carinho na medida certa

Dengoso e de lábia muito esperta

À janela olhamos o futuro distante

Juntos o caminho far-se-á sempre adiante

Toma, leva a minha alma neste embrulho

E mantém-na quente como um dia de julho

Amor, nossa palavra será sempre escassa

Se não juntarmos o toque à criação da massa


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Sacias-me a sede

 


Como a água que corre no rio, sem nunca voltar atrás

Sei que nunca findará o meu pavio, porque Tu deste-me a paz

Não tenho palavras suficientes, nem o gesto mais adequado

Para agradecer os Teus presentes, por nunca me teres abandonado

 

Sei que caminhaste a meu lado, senti a Tua mão na minha

O fardo deixou de ser tão pesado, porque minha alma com a Tua caminha

Quero cair a Teus pés, desarmada, que todas as graças sejam Tuas

Nesta guerra não saí derrotada, soubeste guiar-me por todas as ruas

 

O vazio encheu-se de luz e esperança, vindas do Teu poderoso amor

Sorrio agora com os lábios de uma criança, porque és o meu Criador

Não mereço tamanha bênção, espero manter-me no caminho certo

Anseio pela minha redenção, Tu sacias a sede no meu deserto


domingo, 20 de janeiro de 2019

Dias sem inspiração


O céu está nublado
O dia mais pesado
Preciso de claridade
A luz traz-me saciedade

O vento não vai em conversa
Passa sem um cumprimento
A chuva cai dispersa
O frio está no seu momento

Nestes dias sem inspiração
E da pouca vontade
Entrego-me sem reclamação
À tão aclamada ociosidade.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Vou e não vou

(imagem retirada da internet)

Vou enganar a saudade
Dizer que não sinto falta
E vou mentir p’ra verdade
Que o meu coração já não salta
Quando te vejo passar,
E esboçar um sorriso
Maior que as ondas do mar
Que me faz perder o juízo.

Vou deixar secar
As rosas do meu jardim
Os cravos da minha varanda
E da janela o alecrim.

Vou trocar as voltas
À rotina do meu amor
Trocar o dia e a noite
O frio e o calor.

Vou abrir todas as portas
E perder as chaves sem querer
Porque este diz que é viver
Já não me seduz
E nem me traz essa luz
Que me devia abrigar
Do meu medo do escuro
E me devia ensinar
Que não é mais seguro
Depender de alguém
Que só nos bate à porta
Quando a preguiça não tem
Sinais de vida, está morta.

Já dei a volta por cima
A este vou e não vou
E o sabor a limão e lima
Que tanto amargou
Já foi para a sucata
P’ra enganar mais um tolo
Que um belo ferro é prata.
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