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sábado, 19 de dezembro de 2020

Terra de Lavradores

 


Hoje lembrei-me do passado da minha aldeia

Terra de lavradores, de eira sempre cheia

As vacas ajudavam a lavrar a terra poeirenta

Obedientes, faziam valer a sua ementa

No final do dia de trabalho, regressavam ao curral

O descanso era merecido, no dia seguinte seria igual

As batatas eram semeadas à mão e de costas vergadas

Com a ajuda de quem repartia as forças combinadas

A vindima era um rito, digno da terra de agricultores

O fruto da videira era o manjar dos melhores sabores

Malhar o milho, de mangual bem erguido

A batida tinha de ser igual, sem ritmo perdido

Se a colheita era farta e de boa qualidade

Dividia-se com os vizinhos, com muita boa vontade

Vida dura, ao sol, à chuva, com frio e calor

Mãos ressequidas, com calos e com dor

Saudades daqueles lavradores de corações bondosos

Viviam da terra e da sua terra eram orgulhosos



sábado, 14 de março de 2020

A mercearia do Ti António

Imagem: Internet
Na rua mais antiga da minha localidade
Existe uma mercearia, já com muita idade
Ainda se fazem as pesagens à mão
E a balança tem o seu jeito de ladrão
O Ti António é o único merceeiro
Sempre bem-disposto e prazenteiro
Gosto da simplicidade do estabelecimento
Do cheiro a humanidade no atendimento
O pão é sempre fresco e estaladiço
E gosta de vir acompanhado de chouriço
Na mercearia não se conhece o calote
A fruta tira-se directamente do caixote
Vende-se a crédito, no livro anotado
Mas só a quem não deixa chegar a fiado
O sorriso do Ti António é o cartão de visita
Embrulha o bacalhau amarrado com uma fita
Ainda não aderiu às novas tecnologias
Só quando for obrigado a tais ideologias
Os miúdos deliram com tanto rebuçado
Bem acamadinhos num cartucho de papel acastanhado
Fecha a loja cedo, no horário de inverno
Mas às sete da manhã já faz contas no caderno
A mercearia do Ti António um dia vai fazer falta
Quando a, por agora fraca, mentalidade da malta
Reconhecer que um simples bom dia sorridente
Fazem valer até um aumento do preço corrente

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Sentença de Morte


Com a lua bem lá no alto
O meu perfeito álibi
Fugi sem medo pelo asfalto
E a noite cerrada levou-me dali

Na manhã seguinte no jornal
Alegaram ser o crime perfeito
Nem provas, nem nenhum sinal
Nem culpado, nem suspeito

Recuso-me a viver como uma fugitiva
Já que o meu crime não foi atroz
Não espero reconhecimento em comitiva
Mas não aceito nenhum gesto feroz

O passado, paz à sua alma
Já tinha sentença de morte
Ainda tentei manter a calma
Mas não foi o seu dia de sorte

quinta-feira, 7 de março de 2019

Frágil como as Pitangas


O tempo é como água
Foge-nos por entre os dedos
Se hoje guardas mágoa
Amanhã vives dos medos

Ontem é sempre importante
Porque hoje já sabes mais
Amanhã sairás triunfante
Se souberes por que caminho vais

O passado é como uma estante
Repleta de livros e bugigangas
À vista torna-se desgastante
Mas é frágil como as pitangas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Seria tão simples

(imagem retirada da internet)

Seria tão simples
Seria tão bom
Pedir um desejo
Sempre que quisesse.
E quando saísse do tom
Parava um instante
E dizia para mim,
Que mesmo que não pudesse
Naquele momento
Voltar a entrar no ritmo,
Nem por fora, nem por dentro
Fechava os olhos
Para ver bem lá no fundo
Que o meu pedaço de mundo
Não vai cair aos molhos,
Só porque numa altura da vida
A estrada me deixou perdida
Sem caminho para seguir,
Porque o que importa
É falar à vida a sorrir
E nunca fechar a porta
Ao passado metediço,
Deixando o presente entrar ao serviço.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

LEMBRO-ME (A ESCOLA)



Lembro-me do primeiro dia de escola
Do medo da emancipação
Lembro-me da cor da minha sacola,
Do lápis, da borracha, do bater do coração.

Lembro-me de me sentir grande
Naquele tão pequeno começo de vida
Lembro-me de achar tão longo o caminho
Mas de o fazer altiva, decidida!

Lembro-me do cheiro da minha carteira,
do barulho do choro das outras crianças
Lembro-me da cor da lapiseira
Com que comecei a escrever a esperança.

Lembro-me da campainha que tocava,
pela emoção ao acabar mais um dia
Lembro-me de como depressa passava
O recreio onde brincava e tudo podia.

Lembro-me de me lembrar como seria
Lembrar-me daquele passado tão inocente
Lembro-me de pensar se estaria
Triste, com saudades ou diferente.

Lembro-me do último dia de escola
Das saudades que ainda não tinham chegado
Lembro-me do cheiro da minha sacola
Ao deixar para trás um pouco do meu passado.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009



Seria tão simples
Seria tão bom
Pedir um desejo
Sempre que quisesse
E quando saísse do tom
Parava um instante
E dizia para mim
Que mesmo que não pudesse
Naquele momento
Voltar a entrar no ritmo
Nem por fora, nem por dentro
Fechava os olhos
Para ver bem lá no fundo
Que o meu pedaço de mundo
Não vai cair aos molhos
Só porque numa altura da vida
A estrada me deixou perdida
Sem caminho para seguir
Porque o que importa
É falar à vida a sorrir
E nunca fechar a porta
Ao passado metediço
Deixando o presente entrar ao serviço

segunda-feira, 30 de junho de 2008

RECORDAR

Vestidos de chita na montra
Cartolas na rua a passar
Sombrinhas que voam no tempo
Crianças na rua a brincar

Cavalos galopam sem pressa
Puxando coches tão lindos
Senhoras descem p’la rua
Com vestidos bordados a linho

Bengalas seguem a rigor
Os passos dos seus comandantes
Batem a compasso no chão
São autênticas cantantes

Brincam no passeio aos berlindes
Os putos da rua de cima
Brincam de homens a sério
Os senhores do bar lá da esquina
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