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sábado, 23 de janeiro de 2021

Minha humilde habitação

 



Se vens de visita à minha humilde habitação

Não carece seres catita, esbanja somente educação

Recebo-te com o cuidado de quem só te quer bem

Cresci a ser educado e a dar valor a tudo o que se tem

 

Ao entrares pela porta do meu simples e precioso lar

O que vais dizer importa, por isso pensa antes de falar

Não desdenhes se for pouco o que te puder oferecer

Em cada um habita um louco, mortinho por aparecer

 

Se te sentares à minha mesa, acredita és da Família

Se a lareira estiver acesa, junta-te à nossa vigília

A casa pode ser modesta, sem luxos desnecessários

A virtude não se empresta, nem se aprende nos dicionários

 

Quando for hora de abalar, aceita o abraço verdadeiro

Já estiveste no meu lar, sei que és capaz e ordeiro

A porta será sempre aberta, se nela vieres bater

Na minha casa a ajuda é certa, nada pagas para receber


terça-feira, 28 de julho de 2020

Dia difícil

Chovia desde madrugada, pingos grossos e gelados

Eu já estava atrasada e até à cabeça em recados

A diva da viatura, fez birra e demorou a pegar

Ainda levei à pendura uma publicidade que esqueci de tirar

 

O vidro embaciou, carro velho é malandreco

O, pouco, ar morno não ajudou, via mal p’ra caneco

O guarda-chuva partiu, molhei-me até ao tutano

Donde é que este tempo saiu, de certeza que vim ao engano

 

Demorei a ficar enxuta, o aquecedor, coitado, é fracote

Com o andar da labuta, se não secar, faço boicote

Chegada a hora do almoço, nem me atrevi a sair

Já passei bastante alvoroço, mastigo melhor sem água a cair

 

No regresso à minha habitação, a chuva quis fazer as pazes

A custo, dei-lhe o meu perdão, p’ra próxima pondera como fazes

Demorei a abrir a porta, ainda tropecei ao entrar

Com a neura já meia torta, descambei-me a praguejar


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Sentada nos degraus (Ermelinda)

Nos degraus de pedra, da casa pequena

Sentada com um cesto no regaço, serena

Está a Ermelinda, que já vai nos oitenta

Sempre activa, mas tal idade não aparenta

Hoje remenda as meias, repletas de buraquitos

Diz que dão muito jeito para fazer manguitos

O marido, uma tristeza, está agora acamado

Foi do trabalho duro, sem folga, nem feriado

P’ra quem lhe passa à porta, tem sempre um sorriso

Ainda trata da casa, vai fazendo o que é preciso

A filha, casou, e foi morar na cidade

Vem, volta e meia, ajudar nalguma dificuldade

Os vizinhos, amigos de toda uma vida

Acodem-lhe quando se sente mais perdida

Apesar da vista já fraca, gosta de bordar

Ninguém a ensinou, aprendeu sozinha a praticar

Nada falta ao marido, por muito que já lhe custe

O trabalho não é nada que a assuste

Apesar da volta que a vida tomou

Não reclama e nunca esquece o que passou

Conta ao marido as, poucas, novidades que sabe

Os anos ensinaram-lhe que o bem sempre cabe


sexta-feira, 13 de julho de 2018

A casa que foi tua

Fonte: Google Images



Encontrei pedacinhos de ladrilhos

Espalhados pelos trilhos

Que levam à casa que foi tua

Guardei alguns na carteira

Antes que fossem para a lixeira

Para me lembrar daquela rua



O portão emperrou com a ferrugem

As folhas são a sua penugem

Já não mais te viram chegar

A casa está em ruína

Já não tem a adrenalina

Do tempo em que sabíamos amar



A natureza vai engolir

E sem pena destruir

Tão linda habitação

Quem passa na estrada

Sempre de vida apressada

Apenas verá a vegetação.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010



O telhado nem sempre veda
As lágrimas que querem sair
As paredes nem sempre protegem
De quem mal nos quer impingir

Mesmo que feche a porta
Fica sempre algo de fora
Apesar de ser a minha casa
Há sempre uma altura de ir embora

Deixo a janela aberta
Preciso respirar civilização
Por muito que viva para estas paredes
É bom por vezes agir de antemão

Adoro a minha casinha
Pilar das minhas memórias
Até a soleira da porta
Conhece as minhas histórias

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A MINHA CASA

Quatro paredes escondem
Murmúrios de alguém esquecido
Portas trancadas a ferros
Protegem do inimigo

Na chama da lareira
Caem lágrimas de tristeza
Volto a sentir o frio
Já não sei se tenho a certeza

Quero sair para a rua
Mas já nem sei se a rua vejo
Olho de longe o quintal
Talvez fosse o único desejo

A chuva bate na janela
Quero tentar dormir
Enrolo-me nos cobertores
Volto de novo a sentir
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