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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O Tempo tinha Tempo

 


Tenho saudades de um tempo que não era apressado

Que sentava, esperava e passava um bom bocado

Sem se atrever a reclamar pela boa lentidão

Tenho saudades das horas mais vagarosas

A pressa gostava de parar para apreciar as rosas

O tempo tinha tempo e ainda sobrava tostão

 

Tenho saudades de quando o telefone estava preso

Aquele simples fio, manteve o nosso cérebro ileso

Eramos mais felizes não sendo dependentes

Tenho saudades das ruas repletas de miúdos

Com brincadeiras ensinadas pelos graúdos

O tempo tinha tempo e peças sobresselentes

 

Tenho saudades dos domingos de páscoa no jardim

Dos vizinhos que conviviam na rua, porque era assim

Da confraternização sem um ecrã incluído

Tenho saudades dos sujos trabalhos manuais

De escrever palavra a palavra os nossos ideais

O tempo tinha tempo e não era tempo perdido


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Sentada nos degraus (Ermelinda)

Nos degraus de pedra, da casa pequena

Sentada com um cesto no regaço, serena

Está a Ermelinda, que já vai nos oitenta

Sempre activa, mas tal idade não aparenta

Hoje remenda as meias, repletas de buraquitos

Diz que dão muito jeito para fazer manguitos

O marido, uma tristeza, está agora acamado

Foi do trabalho duro, sem folga, nem feriado

P’ra quem lhe passa à porta, tem sempre um sorriso

Ainda trata da casa, vai fazendo o que é preciso

A filha, casou, e foi morar na cidade

Vem, volta e meia, ajudar nalguma dificuldade

Os vizinhos, amigos de toda uma vida

Acodem-lhe quando se sente mais perdida

Apesar da vista já fraca, gosta de bordar

Ninguém a ensinou, aprendeu sozinha a praticar

Nada falta ao marido, por muito que já lhe custe

O trabalho não é nada que a assuste

Apesar da volta que a vida tomou

Não reclama e nunca esquece o que passou

Conta ao marido as, poucas, novidades que sabe

Os anos ensinaram-lhe que o bem sempre cabe


quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O tempo não espera por mim


Pequei sem motivo
Deixei-me levar pela emoção
Não soube passar pelo crivo
E ofendi o meu guardião

Por momentos tornei-me mesquinha
E queixei-me sem fundamento
Não acreditei na sorte que tinha
Agora só posso dizer que lamento

Prendi-me a fracos ideais
E estagnei na caminhada
Agradecer nunca é demais
Antes grata que mal-educada

O tempo diz que não espera por mim
Que já me deu muitas oportunidades
Resta-me ganhar juízo antes do fim
E deixar de lado as futilidades

terça-feira, 19 de março de 2019

Sem tempo e sem noção



Acuso o tempo de ser pouco
Passo o tempo como um louco
Esperando um tempo para descansar
O tempo hoje não chegou
Do que se fez algo ficou
E o tempo continua a passar

Digo que o tempo voa
Que passa muito à toa
É tempo de ser produtivo
O dia chegou ao fim
O tempo não quis saber de mim
Acho que o tempo está inactivo

Quando o tempo me dá descanso
Acho o tempo um tanso
Porque está a agir com lentidão
O tempo diz-me que não vai fugir
Dá-me um tempo para reflectir
E acabo sem tempo e sem noção.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Este não é o meu tempo

(imagem retirada da internet)

Este tempo em que vivo
Não foi o tempo que aceitei
Já é tempo de saber o que preciso
E este tempo faz-me sentir fora da lei.

É um tempo sem sal e apagado
Nem dá tempo para me fazer brilhar
Se continuar o tempo neste estado
Arranjarei tempo de procurar noutro lugar.

Nasci neste tempo por engano
O meu tempo devia ter outra cultura
Tivesse eu tido tempo de fazer um plano
E este tempo já não me causava tanta agrura.

Basta de ter um tempo impositor
Que não me dá tempo para evoluir
Qualquer dia faço deste tempo um impostor
E o meu tempo naturalmente há-de fluir.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

QUERO VOLTAR AO TEMPO...





Quero voltar ao tempo
das mensagens escritas à mão
quero voltar ao tempo
de percorrer a pé o alcatrão


Quero voltar ao tempo
em que um olhar tudo dizia
quero voltar ao tempo
em que a palavra tudo valia


Quero voltar ao tempo
de matar saudades pelo correio
quero voltar ao tempo
em que dizer o que sinto não era feio


Quero voltar ao tempo
onde jogar ao berlinde era um desafio
quero voltar ao tempo
de brincar na rua sem calor nem frio


Quero voltar ao tempo
do tempo em que era tão simples ser feliz
quero que o tempo me dê sempre tempo
para ter tempo de ser o quer sempre quis

domingo, 27 de julho de 2008

O RELÓGIO

O relógio na parede
Não me quer deixar esquecer
Que o tempo escasseia
E eu ainda não sei viver

Nem o tic nem o tac
Estão a cooperar
Peço que tenham piedade
P’ra um segundo só parar

O tempo vai-se perdendo
Entre cada batida cruel
Já vi que não estás do meu lado
Ó relógio com ponteiros de fel

Hei-de deixar de tomar atenção
Ao teu ritmo de trabalho
Porque nessa altura meu coração
Vai perceber o quanto eu valho
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