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segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

O desânimo

 


O desânimo instalou-se sem ter hora marcada

Julga-se importante, não dá satisfações a nada

Escolheu o melhor quarto, com vista para o lago

E com o maior desdém, disse “depois eu pago”

 

É arrogante, abusado e prepotente

Acha-se melhor que toda a gente

Coabitar com o desânimo é desafiante

É uma luta desigual e de perigo constante

 

Insistiu em prolongar a sua estadia

Mesmo sabendo que não o devia

Ter ouvidos moucos e paciência a dobrar

Até que o desânimo nos queira abandonar


sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Como cem velas


Os degraus estão danificados

Não sei onde colocar os pés

Do cimento ainda restam bocados

O restante foi engolido pelas marés

 

A vista ainda é bela e despretensiosa

Não se deixou abalar pelas desilusões

A alma é sempre mais corajosa

Quando não se define pelas falsas opiniões

 

Apesar do vento duro e majestoso

Nascem papoilas, humildes e singelas

Mesmo o caminho sendo escuro e rugoso

A coragem ilumina-nos como cem velas


 

segunda-feira, 20 de março de 2023

Burlámos o Amor

 


Andávamos de mãos dadas

A exibir um amor de muitas fachadas

Burlámos um amor dito especial

Nem quisemos saber do resultado final

 

Exigimos um do outro uma paixão oca

Levámos ao extremo uma relação já louca

Fomos os melhores actores numa condenada novela

Quem mirasse a pintura, elegia-a a melhor tela

 

Dançámos eximiamente a valsa escolhida

Transparecemos um amor para toda a vida

Pena não termos sabido enganar-nos assim

Devíamos ter ponderado o meio e esquecido o fim

 

O caminho agora dividiu-se em dois

Um vai ficar no antes e o outro vai seguir no depois

Se a vida dá voltas mesmo sem a gente querer

Talvez num futuro distante nos voltemos a prometer


quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Gato Vadio

 

(este não é vadio, é o meu gato Dee)

Um amanhecer ensolarado

Estendido num bom telhado

É o conforto de um gato vadio

O carinho de um qualquer estranho

É sempre um óptimo ganho

Para um gato que sente o vazio

 

Um gato vadio é esperto

Vê um contentor do lixo aberto

E vai logo explorar as suas opões

Será que hoje pode matar a fome

Desde ontem que já não come

A sua barriga anda aos trambolhões

 

Se na rua onde sobrevive cada dia

Morar alguém com alguma simpatia

Tem água e ração num cantinho qualquer

E até quando a chuva não quer parar

Existe um caixote onde se abrigar

Ser gato vadio não é para toda a colher

 

Um dia, alguns, ganham a lotaria

Abandonam a triste e longa romaria

E rumam a um lar para a eternidade

O gato vadio deveria estar em extinção

Porque viver com animal de estimação

Devia ser, acima de tudo, uma obrigatoriedade



quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Dias Cinzentos

 


Bebo um chá quente e olho pela janela

A vista nada se compara a uma aquarela

O dia está frio, sombrio e pesado

Ainda de pijama e sem nenhuma vontade

Decido que tenho de combater a ociosidade

Todo o tempo é precioso se for bem aproveitado

 

Vou para o jardim podar as roseiras

A natureza enche-nos as algibeiras

Respirar o ar puro é um bálsamo reparador

Combater um dia cinzento requer pulso forte

Agradecer os contratempos pode trazer sorte

O bem no mundo só pode avançar com amor


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Néctar da Cumplicidade

 



Quando te vejo meu coração acalma

És a água da mais pura nascente

Teus olhos trazem magia para a alma

Por ti sigo o amor, tornei-me sua crente

 

O teu beijo sacia a sede que me domina

Em teus braços o mundo é sempre seguro

Contigo sinto-me a mais bela menina

Juntos saltamos até o mais alto muro

 

Se demoras mais tempo no regresso

O vazio apodera-se do meu coração

Sem ti o amor nunca terá o devido sucesso

É por ti que escrevo a mais linda canção

 

Conhecemos o néctar da cumplicidade

Somos a paixão para lá de amadurecida

Sabemos onde encontrar a felicidade

O amor connosco tem a vida construída


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Visão Turva

 


Farrapos de nuvens caem incessantemente

Deixam-me a visão turva e inconsistente

Deambulo sem sentido nem orientação

O ar tornou-se gelado, forte e espesso

Sinto-me fria, a qualquer barulho estremeço

A angústia vai tomar conta da minha direção

 

Não consigo controlar nem orientar os meus passos

Oiço gemidos agudos, algo me toca nos braços

O terror toma conta da minha existência

Formou-se um nevoeiro pesado com cheiro a maresia

Arrasto-me com a troupe sem saber a coreografia

Não enxergo a claridade, será isto a demência?


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Hilário Sapateiro

 


O Hilário sapateiro, apesar da idade, ainda conserta sapatos

Sentado à soleira da porta com os óculos quase a cair

Homem honesto, recatado, nunca conheceu desacatos

Foi em catraio que o tio lhe ensinou a arte que decidiu seguir

 

Os, poucos, mas fiéis clientes do sapateiro

Além do serviço procuram também conversar

Gostam de estar juntos a ver passar o carteiro

Na companhia do Hilário com cheiro de graxa no ar

 

As botas de trabalho são o que mais conserta

Era capaz de o fazer até de olhos vendados

A sua porta às oito da manhã já está aberta

Mas o pobre Hilário não se livra dos fiados

 

Faz tamancos artesanais de excelente qualidade

Que a neta decidiu divulgar pela famosa internet

Diz que faz enorme sucesso na gente da cidade

Até já teve uma encomenda para fazer uns sete

 

O Hilário sapateiro mora ao lado da sua oficina

Desde que casou com a sua Elvira há cinquenta anos

O calçado será sempre o ouro da sua mina

Deseja que o futuro seja brando e não cause muitos danos


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Afogar em chão seco

 


O medo decidiu ter aulas de natação

Para não se afogar nas minhas lágrimas salgadas

Há quem se afogue em seco chão

Sem nunca ter, sequer, as mãos molhadas

 

O desassossego é pesado e teimoso

Nunca tem mais nenhum compromisso

Já lhe disse que o acho espalhafatoso

Não me faz falta, nem para encher chouriço

 

A tristeza dilacera as entranhas

A angústia é desmoralizante

As alegrias são-me todas estranhas

A escuridão tornou-se a minha acompanhante


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Andar à pendura


Caio a Teus pés, desencorajada

Não consigo enxergar, a visão está turvada

Venho falar-Te, quero aliviar o peito

Nem sei como começar, fico sem jeito

Senhor, perdoa as frases com pouco sentido

Falo depressa, o meu raciocínio fica dorido

Sei que me esqueço, da demora razoável

Não sou só eu em estado deplorável

Sabes, sou apressada e cometo gafes

Tento remediar, mas já não seguram os agrafes

Infelizmente, sou ingrata repetente

Não é intencional, mas está presente

Senhor, perdoa o pouco agradecimento

Mas é constante o meu arrependimento

As mãos que hoje Te pedem uma solução

Seguram no rosário em convicta oração

Quero ter a Tua força e a Tua bravura

E deixar-me de andar à pendura


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Concordar com a Fantochada


 
Tenho uma tremenda aversão
A quem se acha dono da razão
A ignorância abunda com toda a lucidez
E o dito entendido não desiste da altivez

Palavras ditas com sotaque muito chique
Um exagero nas frases, em estilo de chilique
Teimam em mostrar pura inteligência
E gesticulam muito para lá da decência

Gente que vive e respira futilidade
O importante é salientar a vaidade
Continuo a concordar com esta fantochada
Assim rapidamente ficam de boca fechada

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Tropecei na Malvadez


Tropecei destrambelhadamente
Nas fracas palavras que me dizem
Será que ignoram o que a minha alma sente?
Ou serão devotos daquilo que maldizem?

A queda podia ter sido uma fatalidade
Com tamanha raiva proferida
Lamento esta triste e gratuita maldade
E tão abundante gente enxerida

Aguentei, pouco firme, mas com audácia
Recuso-me a ceder perante a ignorância
Fazer ouvidos moucos, tem eficácia
Retira ao perpetrador alguma da sua arrogância

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Sou Agradecida


Sou agradecida pela imensa sorte
Pelas bênçãos de grande porte
Pelo Teu amor sem qualquer barreira
Sou agradecida pela generosidade
Pelas graças de alta qualidade
Contigo venço de qualquer maneira

Sou agradecida pelo teu parentesco
O alcance do Teu amor é gigantesco
O meu obrigado ficará sempre aquém
Sou agradecida por me dares o que preciso
Não o que peço de modo indeciso
Contigo a meu lado, não me fere ninguém

quinta-feira, 28 de março de 2019

Com Deus


Com Deus aprendi a bondade
Conheci a solidariedade
Sei que posso sempre melhorar
Com Deus as noites suportáveis
As dores mais toleráveis
Já não estou sozinha a chorar

Com Deus percebo a equação
Compreendo o valor do perdão
Aceito as pedras no caminho
Com Deus nunca estou abandonada
Sinto diariamente o quanto sou amada
Com Deus tenho a rosa, sem espinho.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Em Banho-Maria


A mentira só dura
Enquanto não chega a verdade
Até lá vive-se em clausura
Com medo da honestidade

O mentiroso nem se apercebe
Das vezes que cai na mentira
Pensa que os olhares que recebe
São de quem a história engolira

Ser falso e trapaceiro
Tornou-se numa epidemia
A arte de ser verdadeiro
 Ficou em banho-Maria.

terça-feira, 19 de março de 2019

Sem tempo e sem noção



Acuso o tempo de ser pouco
Passo o tempo como um louco
Esperando um tempo para descansar
O tempo hoje não chegou
Do que se fez algo ficou
E o tempo continua a passar

Digo que o tempo voa
Que passa muito à toa
É tempo de ser produtivo
O dia chegou ao fim
O tempo não quis saber de mim
Acho que o tempo está inactivo

Quando o tempo me dá descanso
Acho o tempo um tanso
Porque está a agir com lentidão
O tempo diz-me que não vai fugir
Dá-me um tempo para reflectir
E acabo sem tempo e sem noção.

sábado, 9 de março de 2019

Amor de Brincadeira


Vitórias e derrotas
Jogos e cambalhotas
Um amor de brincadeira
Beijos e abraços
Inteiro ou aos pedaços
Amor para a vida inteira

Um toque leve na mão
E a enfadada solidão
Desiste e segue caminho
Um sussurro ao ouvido
O amor sente-se compreendido
O coração já não fala baixinho.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

De Madrugada

Fonte: Google Images

Cinco da madrugada
Da janela olho a estrada
O silêncio está ao serviço
O vento apareceu em reboliço
Não se vê vivalma
Há algo que me acalma
E traz alguma tranquilidade
Sinto um descanso na alma
E um rasgo de felicidade

É gostoso assim amanhecer
Com a solidão de braço dado
E deixar-se ficar acordado
Para ver o dia nascer.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Brincadeiras de antigamente

Fonte: Google Images

Calças arregaçadas
Equipas marcadas
O jogo vai começar
A bola é de farrapos
Há que poupar nos trapos
Não são tempos de gastar

Os catraios sabiam brincar
Porque sabiam valorizar
O pouco que lhes era dado
O estômago que sempre roncava
A comida não abundava
Sabia a pouco o pão retardado

O tempo de brincadeira
Não durava a tarde inteira
Outros afazeres se levantavam
As árvores carregadas de fruta madura
Obrigavam a uma aventura
E eram poucos os que não as roubavam.
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