
Certa noite, já altas horas
Alguém gritava por mim
Com preguiça e sem vontade
Fui ver quem me chamava assim
Fui espreitar pela janela
“Mas quem é que me chama?”
Nada vi, ninguém ouvi
“Mas quem raio me tirou da cama?”
Bateram à porta pausadamente
Sem uma palavra se ouvir
“Então vai dizer quem é?”
“Ou vou voltar a dormir?”
Se soubesse não tinha perguntado
Quem comigo queria falar
Pois quando soube quem do outro lado falava
Senti o corpo todo a gelar
“É o Diabo quem vem falar contigo
Tenho uma proposta a te fazer
Estou interessado na tua alma
Por um acaso não a queres vender?”
“Olha podes ir por onde vieste
Aqui não há comércio aberto
Ias ter tantos ouvintes
Como água no deserto”
Ouvi um pequeno rosnar
E percebi que lentamente se afastava
Devia ser do peso do rabo entre as pernas
E da derrota que consigo levava
Que bom foi voltar a adormecer
Com a minha alma juntinha a mim
Há-de sempre me acompanhar
No bem, no mal, até ao fim

