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terça-feira, 25 de maio de 2021

Pisar os Calos

 


Se te pisam os calos intencionalmente

Mesmo com dor segue em frente

Nunca digas para onde pretendes seguir

Há quem te queira acompanhar apenas para te denegrir

Guarda no coração os teus planos e desejos

A quem muito te pergunta responde com bocejos

Quem cala nem sempre consente

Apenas quer evitar certa gente

Ouvir palavreado chato e pretensioso

Vindo da boca de um mentiroso

É dose pesada de puro enfado

Para a qual ninguém está vacinado

Deixa-os pensar que nos conhecem os passos

Que nos vigiam as vitórias e os fracassos

Nós vamos avançando a ritmo produtivo

Em total silêncio em busca do objectivo


sexta-feira, 14 de maio de 2021

Inútil Papelada

 


Procuro avidamente nas minhas anotações

Recordo-me que já te escrevi angustiada

As palavras que leio não passam de sermões

Necessito reorganizar esta inútil papelada

 

Lembro-me que já tinha anoitecido

A penumbra e o frio estavam de soslaio

Escrevi-te como quem procura algo perdido

Acompanhada pela vivacidade de um catraio

 

Era madrugada quando cessei a escrita

E, juro, guardei nesta gaveta onde procuro

Acredito que o universo por vezes me irrita

Para saber o quanto o meu temperamento é duro

 

Se me lembrasse do que escrevi na missiva

Iria dizer-to até o fôlego me abandonar

Sei apenas que eram frases inofensivas

Escritas para quem, gratuitamente, me quis magoar


domingo, 9 de maio de 2021

Faustino Sucateiro

 



O senhor Faustino, que há muito passou os setenta

Levanta-se cedo, apesar dos entraves que a idade acalenta

A pensão é baixa e mal dá para a mercearia e para a farmácia

O que o levou a tentar desenrascar-se com alguma audácia

Recolhe, de quem não precisa, o ferro velho para a sucata

Leva num atrelado preso à bicicleta, uma cena um tanto caricata

A mulher sempre trabalhou na agricultura, sem regalias para a reforma

Não ter uma pensão para ajudar, é algo de que não se conforma

Um ou dois dias por semana ainda labuta na terra poeirenta

O que lhe pagam não é muito, mas onde tapa já esquenta

Já tem fama de sucateiro, mas o Faustino não se importa

De manhã vai para o ferro velho, à tarde trabalha na horta

O filho, único e desnaturado, ganhou o mundo ainda rapazote

Nem no natal dá as caras, envia uma carta e um simples pacote

O senhor Faustino e a mulher já se acomodaram à ingratidão

O dia foi abençoado se não faltou saúde nem um pedaço de pão

De manhã cedo o atrelado segue caminho, guiado pelo seu condutor

O Faustino trata o ferro velho como os pincéis na mão de um pintor


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