O senhor Faustino,
que há muito passou os setenta
Levanta-se cedo,
apesar dos entraves que a idade acalenta
A pensão é baixa e
mal dá para a mercearia e para a farmácia
O que o levou a tentar
desenrascar-se com alguma audácia
Recolhe, de quem
não precisa, o ferro velho para a sucata
Leva num atrelado preso
à bicicleta, uma cena um tanto caricata
A mulher sempre
trabalhou na agricultura, sem regalias para a reforma
Não ter uma pensão
para ajudar, é algo de que não se conforma
Um ou dois dias por
semana ainda labuta na terra poeirenta
O que lhe pagam não
é muito, mas onde tapa já esquenta
Já tem fama de
sucateiro, mas o Faustino não se importa
De manhã vai para o
ferro velho, à tarde trabalha na horta
O filho, único e
desnaturado, ganhou o mundo ainda rapazote
Nem no natal dá as
caras, envia uma carta e um simples pacote
O senhor Faustino e
a mulher já se acomodaram à ingratidão
O dia foi abençoado
se não faltou saúde nem um pedaço de pão
De manhã cedo o
atrelado segue caminho, guiado pelo seu condutor
O Faustino trata o
ferro velho como os pincéis na mão de um pintor
