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domingo, 9 de maio de 2021

Faustino Sucateiro

 



O senhor Faustino, que há muito passou os setenta

Levanta-se cedo, apesar dos entraves que a idade acalenta

A pensão é baixa e mal dá para a mercearia e para a farmácia

O que o levou a tentar desenrascar-se com alguma audácia

Recolhe, de quem não precisa, o ferro velho para a sucata

Leva num atrelado preso à bicicleta, uma cena um tanto caricata

A mulher sempre trabalhou na agricultura, sem regalias para a reforma

Não ter uma pensão para ajudar, é algo de que não se conforma

Um ou dois dias por semana ainda labuta na terra poeirenta

O que lhe pagam não é muito, mas onde tapa já esquenta

Já tem fama de sucateiro, mas o Faustino não se importa

De manhã vai para o ferro velho, à tarde trabalha na horta

O filho, único e desnaturado, ganhou o mundo ainda rapazote

Nem no natal dá as caras, envia uma carta e um simples pacote

O senhor Faustino e a mulher já se acomodaram à ingratidão

O dia foi abençoado se não faltou saúde nem um pedaço de pão

De manhã cedo o atrelado segue caminho, guiado pelo seu condutor

O Faustino trata o ferro velho como os pincéis na mão de um pintor


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